O paradoxo do desejo

Escreveu Virgílio Ferreira na sua infinita sabedoria que “o maior paradoxo do desejo não está em procurar-se sempre outra coisa: está em se procurar a mesma, depois de se ter encontrado”. É quase sempre assim nas relações pessoais. Mas também nas relações profissionais.

Julgo ser esse imenso paradoxo que nos leva a evitar falar de uma relação falhada. Não me recordo aliás de ter lido ou encontrado recentemente nos blogs ou nos manuais de gestão nas profissões jurídicas referências a como lidar com anteriores parcerias ou relações profissionais, e mais ainda, qualquer análise objetiva ou puramente introspetiva sobre o que correu mal.

O tema é impopular ao ponto de numa tertúlia de antigos colegas todos parecerem querer dar a impressão de que a anterior relação foi uma espécie de etapa para o que se se encontrou agora ou para o que vai ser. Esta perceção que se quer fazer passar será na maioria dos casos falsa – uma espécie de mecanismo de autodefesa – tanto quanto o tema divórcio surge em conversa num círculo de amigos.

Um divórcio numa relação profissional não é afinal muito diferente de um divórcio civil na maioria dos aspetos.

Ninguém ganha. Divide-se o escritório, vendem-se as coisas que ninguém quer e a muito custo pagam-se as contas que ficaram. Arquivam-se as peças processuais conjuntas e as declarações fiscais. Luta-se. Chora-se. Em vez de decidir quem fica com a guarda dos filhos, espera-se que os clientes decidam a quem preferem confiar os seus assuntos. Se as coisas correrem mal o suficiente, acaba-se na mediação, na Ordem ou mesmo no tribunal para decidir o que resta.

Na minha já longa vida profissional já tive várias vezes de enfrentar separações difíceis. Nenhuma correu particularmente bem. Todos acabámos por nos sentir traídos. Todos cansados. Aprendi a custo que não vale a pena lavar roupa suja em público sobre as razões que nos levam a deixar de contar com colaborares competentes e valiosos ou as razões que os fizeram querer mudar de ares. Acontece. Todos atribuímos significados diferentes aos nossos projetos de carreira. O dinheiro. A ética profissional. A posição entre os pares. O tempo para nós próprios. Não há uma ideia única quanto à gestão um projeto empresarial, como não há um modelo de escritório de advocacia. Há quanto muito exemplos. Alguns bons, outros nem por isso. No resto legitimamente discorda-se. Discorda-se da forma como prestamos serviços aos clientes e até que serviços oferecemos. Discorda-se da distribuição das tarefas, das responsabilidades, dos processos. E há até os casos de sublimação da discórdia em que alguém se apercebe que não é feliz a exercer advocacia e decide mudar de vida.

Há infinitas razões para que um escritório de advocacia ou uma sociedade de advogados não corra bem e em muitos casos não há culpas a atribuir. Não que a ausência de culpa, possa curar as inevitáveis feridas. Isso só o tempo…

Hoje em dia, sou amigo de quase todos os colegas com quem partilhei a toga, mas quase sempre à distância. Não é que não ache que não sejam excelentes profissionais ou que hesite por um momento em subestabelecer algum trabalho jurídico. Mas a verdade é que não conversamos muito para além das trivialidades da vida – música, cinema, fotografia, teatro, um filho. E mais online, no Facebook, que cara a cara. Não faço ideia do que pensam de mim profissionalmente, nem me importo de perguntar. Já esqueci o que me disserem e o que lhes disse. Mas como nos divórcios há sempre um desconforto associado à separação que mesmo com o passar dos anos dificilmente conseguimos superar.

É tal paradoxo do desejo que na vertigem do hoje nos faz oscilar entre um pretérito mais que prefeito e um futuro mais que incerto.

Não me quero ficar pelo fatalismo, quase sempre imobilista (exemplos não faltam: basta abrir a televisão e ouvir os fazedores de opinião sobre o País), pelo que a pergunta se impõe:

Será que estas situações se podem evitar ou até minimizar? Deixo 3 ideias que não são novas, mas que não me parecem de desprezar.

Conhecer o teu trabalho e o do parceiro. Quanto mais penso sobre o assunto mais me convenço que só quando nos conhecemos bem a nós próprios pudemos ousar sequer começar o conhecer os outros. Mas a segurança quanto aquilo que queremos e ao rumo traçado não é suficiente. Da mesma forma que (salvo para alguns timoratos) o casamento não deve ser encarado com ligeireza, antes precedido de um prolongado namoro, também uma relação profissional deve ser posta à prova antes mesmo de começar. Se há “esqueletos no armário” – pessoal ou profissionalmente – é melhor descobrir antes. Sobretudo numa profissão em que a ética e a deontologia profissionais são a pedras de toque. Confiar um assunto de um cliente de uma vida a uma pessoa em que não confiamos inteiramente é provavelmente o maior erro que já cometi.

Fazer as perguntas certas. Para conhecermos e nos darmos a conhecer é preciso falar longamente sobre o trabalho, o grupo, os egos, os honorários, o marketing, os clientes, tudo. E fazer todas as perguntas antes: o que é que esperamos de um projeto conjunto? Que objetivos pretendemos realizar?. Quais os benefícios que esperamos obter?. E perceber os pequenos sinais. As pessoas tentam criar uma imagem de si próprias que raramente tem correspondência com a realidade. Por isso não é garantido que a relação sobreviva aos stresses do dia a dia pelo que escrever um rascunho do projeto conjunto, identificando os pontos fortes e fracos de cada um, ou mesmo convidar para um mês de trabalho conjunto antes de selar qualquer compromisso é essencial.

Ser auto-suficiente. Ninguém quer um parceiro de negócios, cujo trabalho não constitua uma mais-valia profissional e financeiramente, assim como ninguém quer uma “cara metade” que não seja auto suficiente. As melhores parcerias são aquelas em que cada qual age como se tivesse a exercer a profissão em prática isolada, dando e recebendo na justa medida do seu empenho e mérito. Investir profissionalmente em alguém – mesmo num jovem no decurso do estágio – deve sempre ter como contrapartida o trabalho e a remuneração desse trabalho no presente e não só a expectativa do que este possa vir a ser ou a fazer no futuro.

Estou absolutamente convencido que uma grande amizade não determina forçosamente uma boa relação profissional. Alguns dos meus melhores colaborares não os conhecia de parte nenhuma antes de trabalharmos em conjunto. E houve amigos que se encostaram na amizade não justificando no trabalho realizado. Mas uma coisa é certa: uma má pareceria profissional dá cabo de qualquer amizade, pelo que o único conselho que posso dar é que sempre que confrontados com o paradoxo do desejo saibamos no que se estamos a meter antes de dizer que SIM ou ADEUS.

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